CONHECIMENTO TRADICIONAL: BASE PARA O DESENHO DE SISTEMAS AGROFLORESTAIS

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CONHECIMENTO TRADICIONAL: BASE PARA O DESENHO DE SISTEMAS AGROFLORESTAIS
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  Revista Extensão Rural, DEAER – CCR – UFSM, vol.19, nº 2, Jul – Dez de 2012 29   CONHECIMENTO TRADICIONAL: BASE PARA O DESENHO DE SISTEMAS AGROFLORESTAIS Joel Donazzolo 1  Tatiana Aparecida Balem 2  Paulo Roberto Cardoso da Silveira 3   Resumo A modernização da sociedade e da agricultura, além de artificializar a natureza, causou erosão dos sistemas de conhecimentos locais sobre as práticas de intervir e conviver com ela, os quais estão na iminência de serem perdidos, pois não fazem parte da educação das novas gerações. Na busca de sistemas de produção mais sustentáveis, há a necessidade de uma relação mais estreita com os sistemas ecológicos, dotados de uma alta complexidade, que a ciência simplificadora do modo dominante não consegue fazê-lo. Neste trabalho, abordam-se o resgate, a compreensão e o uso dos saberes tradicionais/locais como um tipo válido de conhecimento na projeção e execução de sistemas agroflorestais de produção, demonstrando seu papel imprescindível na relação mais harmoniosa entre ambiente e sociedade. Palavras-chave:  conhecimento local, sistemas agroflorestais, sistemas de produção sustentáveis 1 Prof. da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Campus Dois Vizinhos, e Doutor em Recursos Genéticos Vegetais pela UFSC. joel@utfpr.edu.br 2 Prof.ª do Instituto Federal Farroupilha, Campus Júlio de Castilhos, pesquisadora do NEPALS-UFSM. Ms. em Extensão Rural, Doutoranda em Extensão Rural pela UFSM. tatianabalem@yahoo.com.br 3 Prof. do Departamento de Educação Agrícola e Extensão Rural da UFSM, Ms. em Extensão Rural e Doutor pelo do Programa Interdisciplinar em Ciências Humanas da UFSC, pesquisador e coordenador do NEPALS – UFSM. prcs1064@yahoo.com.br    CONHECIMENTO TRADICIONAL: BASE PARA O DESENHO DE SISTEMAS AGROFLORESTAIS 30 TRADITIONAL KNOWLEDGE: BASIS TO DESIGN AGROFORESTRY SYSTEMS Abstract The modernization of society and agriculture, beyond of synthesizing nature, caused erosion on local knowledge systems related to the way how to deal with and live with nature, which means that it is on the verge of being lost because it has not being part of the new generations education. Seeking for more sustainable production systems it is necessary a closer relationship with ecological systems endowed with high complexity, what the traditional science dominant knowledge has not been able to deal with. In this paper, we addressed the recovery, the understanding, and the use of traditional/local knowledge as a valid type of knowledge to design and implement agroforestry systems production, demonstrating its essential role in harmonious relationships between environment and society. Key-words: agroforestry systems,   local knowledge, sustainable production systems 1. INTRODUÇÃO A intensa expansão das fronteiras agrícolas, com o avanço da urbanização da sociedade, vem ocupando cada vez mais o habitat natural, causando significativa erosão da biodiversidade e do conhecimento tradicional a ela associado. O modelo de desenvolvimento adotado vê, na agricultura, o papel de produção de commodities   para exportação e na sustentação do fornecimento de matérias-primas para as agroindústrias processadoras de alimentos, utilizando-se intensamente de recursos naturais e substituindo o trabalho pelo capital. A inclusão de mais consumidores no mercado alimentício, através do aumento do poder aquisitivo pelas políticas compensatórias de cunho assistencialista pós-2003 e da retomada do crescimento econômico neste último período (DELGADO, 2008), aumenta a demanda por produtos agrícolas. Para atender a esse aumento de consumo de uma população cada vez mais urbanizada e, portanto, dependente de alimentos produzidos no meio rural, pressionam-se os ecossistemas mais frágeis. Essa pressão se dá mediante práticas agrícolas desestruturadoras dos mecanismos  Revista Extensão Rural, DEAER – CCR – UFSM, vol.19, nº 2, Jul – Dez de 2012 31   reguladores desses agroecossistemas, tributárias de um modelo tecnológico simplificador, orientado, apenas, pelo rendimento físico e financeiro dos cultivos. Contudo, considerando que o carro-chefe da economia brasileira, na primeira década do século XX, foi a produção para exportação e não a produção de alimentos para o mercado interno, tais argumentos de justificativa da expansão da fronteira agrícola para essas áreas devem ser relativizados. Esse processo de re-primarização da economia, segundo Delgado (2008), ocorre com um crescimento nunca visto da indústria de insumos para agricultura, fortalecendo o setor do agronegócio e seu modelo intensivo em uso de agroquímicos. Esse cenário de contínua expansão da fronteira agrícola, concomitante com a intensificação da produção que exaure a capacidade de resposta do solo e aumenta a poluição dos recursos hídricos, exerce uma forte pressão não somente sobre as áreas agricultáveis, mas também sobre áreas de preservação permanente e de reserva legal. O ideário modernizador concebe os espaços de produção como homogêneos. Assim, a agricultura se desenvolve sem considerar as características ecossistêmicas, artificializando o espaço natural (SANTOS, 1996), Em muitas áreas, a erosão genética está ocorrendo aceleradamente, porque os agricultores estão mudando rapidamente seus sistemas tradicionais de cultivo para uma agricultura comercial, empurrados pelas forças sociais, econômicas e técnicas (ALTIERI & NICOLLS, 2000). Tal processo deve ser acelerado pela generalização do uso da transgenia na agricultura brasileira, o que permitirá o avanço sobre áreas antes consideradas impróprias para o cultivo agrícola (PORTO-GONÇALVES, 2006). Atualmente, uma parcela significativa da sociedade tem demonstrado preocupação com esse fato, inclusive a comunidade científica, a qual não se preocupou com isso no passado e tem parcela significativa de responsabilidade no problema gerado. Nesse sentido, assume-se como necessário frear esse processo de degradação dos ecossistemas devido à importância da biodiversidade na vida no planeta. A conservação dos ecossistemas tem o papel de manter a resiliência do sistema e, dessa forma, assegurar os serviços do ambiente para a sociedade (GADGIL et al  ., 1993), além de garantir a segurança alimentar dos povos (ROCHA et al  ., 2005), entre tantos outros atributos que poderíamos citar. Se, por um lado, a agricultura ou o manejo agrícola é o principal fator de perda da biodiversidade, por outro, é também o principal meio para retardar essa perda (RODRIGUES, 2001). Ou  CONHECIMENTO TRADICIONAL: BASE PARA O DESENHO DE SISTEMAS AGROFLORESTAIS 32 seja, mudando a forma de produzir, especialmente no tocante à relação e manejo com os recursos naturais, poderemos rumar à reversão desse problema, pois é possível desenvolver agroecossistemas com alta biodiversidade. Dessa forma, muitas experiências têm indicado o uso de sistemas agroflorestais (SAFs) como uma estratégia de produção mais sustentável e que pode auxiliar na conservação in situ/on farm da biodiversidade. Assim sendo, o presente trabalho tem o objetivo de contextualizar, a partir de uma pesquisa bibliográfica 4 , o resgate, a compreensão e a utilização do conhecimento ecológico tradicional na construção dessas estratégias de produção e de manejo dos recursos genéticos vegetais (RGV) mais equilibrados, tendo como base os SAFs. 2. BIODIVERSIDADE E A NOÇÃO DE CONSERVAÇÃO A Convenção sobre Diversidade Biológica 5  (CDB) define, em seu artigo 2º, a biodiversidade ou diversidade biológica como a variabilidade de organismos vivos de todas as srcens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte; compreende ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas. Para Puts et al.  (2001), biodiversidade se refere a variedade e variabilidade natural entre os organismos vivos, os complexos ecológicos onde eles naturalmente ocorrem e a maneira com que eles interagem com cada um dos outros organismos e com o ambiente. A diversidade biológica pode ser mensurada em termos de 4  A pesquisa bibliográfica foi realizada de forma a resgatar a importância do conhecimento local e de sua preservação para o manejo dos Sistemas Agroflorestais. Busca-se uma teorização, a qual, como afirma Bruine, Herman e Schoutheete (1991), é formulada em termos de proposições que unem conceitos e evidências empíricas documentadas em artigos científicos, sendo continuamente passível de ser reformulada. 5  A Convenção Sobre Diversidade Biológica (CBD) estabelece normas e princípios que devem reger o uso e a proteção da diversidade biológica em cada país signatário. Em linhas gerais, a CDB propõe regras para assegurar a conservação da biodiversidade, o seu uso sustentável e a justa repartição dos benefícios provenientes do uso econômico dos recursos genéticos, respeitada a soberania de cada nação sobre o patrimônio existente em seu território. A CBD foi assinada em 1992, durante a Eco 92, por um grande número de países. Atualmente, ela foi ratificada por 168 países, incluindo o Brasil, através do Decreto Nº 2.519 de 16 de março de 1998. (Fonte: http://www.cdb.gov.br/CDB. Acesso em 19 de junho de 2012)  Revista Extensão Rural, DEAER – CCR – UFSM, vol.19, nº 2, Jul – Dez de 2012 33   diferentes componentes (paisagem, ecossistemas, comunidade, população/espécie e genética) e cada qual tem atributos estruturais, composicionais e funcionais. Nesse sentido, conservação da biodiversidade compreende a preservação, a manutenção, o uso sustentável, a restauração e o fortalecimento do ambiente natural (FRIIS-HANSEN & STHAPIT, 2000) 6 . Em um aspecto mais amplo, a conservação envolve um manejo da biodiversidade em todos os seus níveis ou componentes, evitando a perda de seus atributos e levando em consideração o fator temporal no desenvolvimento dos ecossistemas. A lei 9.985/2000, que institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação - SNUC, define, em seu artigo 2º, inciso II, conservação da natureza como o manejo do uso humano da natureza, compreendendo a preservação, a manutenção, a utilização sustentável, a restauração e a recuperação do ambiente natural, para que possa produzir o maior benefício, em bases sustentáveis, às atuais gerações, mantendo seu potencial de satisfazer as necessidades e aspirações das gerações futuras, e garantindo a sobrevivência dos seres vivos em geral. Entende-se manejo, explicitado no inciso VIII do mesmo artigo, como “  todo e qualquer procedimento que vise assegurar a conservação da diversidade biológica e dos ecossistemas”   (MMA, 2000). É possível identificar dois grandes grupos de estratégia de conservação: a conservação ex situ, que diz respeito aos cuidados para preservação das espécies vegetais fora de seu ambiente natural; e a conservação in situ  7  , que se refere à manutenção das plantas em seu próprio habitat   (JARVIS et al  ., 2000). Por se tratar de um assunto complexo, a conservação da biodiversidade tem de ser analisada de forma ampla, em que devem ser consideradas todas as estratégias que contribuam para que seja atingido esse objetivo. Portanto, sempre que possível, e necessário, pode-se e deve-se lançar mão tanto de ações  in situ como ex situ   de conservação, dependendo da situação de cada RGV em particular. 6   Apud Jarvis et al  . (2000). 7 Para efeito deste trabalho, conservação in situ, conservação na propriedade rural ou conservação on-farm   serão tratados como semelhantes, apesar das diferenças conceituais entre ambas.
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