LINGUA PORTOGHESE E BRASILIANA O MODERNISMO E A PROCURA DO 'BRASIL REAL' POR MARIO DE ANDRADE

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LINGUA PORTOGHESE E BRASILIANA O MODERNISMO E A PROCURA DO 'BRASIL REAL' POR MARIO DE ANDRADE
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  L INGUA P ORTOGHESE E B RASILIANA   O MODERNISMO E A P ROCURA DO ‘BRA S IL REAL’ POR MARIO DE ANDRADE MARTINA DELFINO      INTRODUÇÃO O movimento modernista desenvolvido a partir da Semana de Arte Moderna que teve lugar em São Paulo em 1922 foi e é atualmente considerado um movimento de ruptura com que foi a tradição brasileira até aquele momento. Com a semana de arte moderna, temos a assim chamada “Primeira fase do Modernismo” , também chamada fase he roica caraterizada pela formação de grupos do movimento, como o Antropófago (1928) e o Pau-Brasil (1924). Entre as bandeiras reivindicadas pela vanguarda, estavam: o direito à pesquisa e experimentação estética, a liberdade de expressão e criação artística, a incorporação da vida quotidiana às temáticas literárias, com destaque ao folclórico e ao popular, a incorporação da pluralidade cultural e linguística brasileira, o nacionalismo crítico, as inovações técnicas por meio da adoção do verso livre, a linguagem coloquial e a eliminação de sinais de pontuação, bem como experimentos no léxico, na sintaxe e na semântica. Neste breve trabalho será tomada em consideração só esta primeira fase do movimento enquanto universalmente reconhecida como a mais vanguardista e subversiva em relação ao passado. Como qualquer outro movimento inovador, também o movimento modernista teve um lado que poderíamos definir iconoclasta no sentido em que pretendeu derrubar conceitos e preconceitos arraigados por uma tradição, tentando substitui-los por novos parâmetros que só o tempo decidirá se minimizar ou fazer amadurecer. Na recusa da tradição o modernismo fez um esforço tenaz para definir uma srcinalidade que fosse propriamente brasileira. Foi, de facto, um tempo revolucionário e nacionalista e mesmo desta dupla exigência o Brasil vivi a renovação da sua cultura contemporânea em varias áreas, desde o romance do Nordeste até à pintura, à musica e ao cinema. Pode se refletir sobre o fato que, após da conquista da independência política em 1822, o pais esperou um século, até 1922, para reivindicar, ou pelo menos tentar de reivindicar, a sua independência cultural. A busca na representação dum “Brasil real” encontrou na questão da língua um terreno particularmente fértil. Se bem os escritores brasileiros modernistas considerem se libertos da norma gramatical tradicional, é preciso ter em conta que o nível que atingem nesta libertação é muito variável, condicionada principalmente pelo temperamento individual, pela opção estética ou também pela srcem regional. É principalmente no trabalho dos modernistas da primeira vaga que a oposição a esta gramática tradicional e ao purismo lusitano traduz-se no uso e na escrita de uma língua que se aproxima à fala brasileira; uma tentativa aquela modernista que,  como bem sublinha Afrânio Coutinho, procurava “diminuir o divorcio entre a língua falada e a escrita, numa integração da primeira na segunda.” 1  Depois quase cem anos é possível afirmar que esta abertura realizada pelo movimento, por pouco resultados práticos que tenha tido como vamos ver mais para frente, será de qualquer maneira definitiva e uma pagina terá voltada para sempre. É mesmo com o movimento modernista que os tabus em matéria linguística caem e que pela primeira vez os escritores sentem-se livres de se expressar sobre assuntos no âmbito da distinção entre a língua escrita e aquela falada. Mas também deve acentuar-se que os escritores modernistas não produziram nenhuma obra importante em matéria filológica e linguística, deixaram, de facto, as suas marcas na língua mais pela pratica do que pela teoria. O CAMINHO PARA O UNIVERSAL  A tentativa de realizar uma nacionalidade meramente brasileira já tinha sido explorada em outros momentos históricos, particularmente no Romantismo, contudo a discussão feita naquela época não abordou o problema por um viés critico. O que mais foi contestado aos autores românticos é de não ter conseguidos libertar as suas representações das influências externas e passadistas e de ter insistidos demais sobre o elemento exótico como marca nacionalista. 2  Qualquer outro modelo de nacionalismo, de facto, tinha a tendência de falar do nacional tendo em conta modelos que nunca tinham a ver com o Brasil; ou seja, muitos tentavam analisar e compreender o Brasil com postulados teóricos utilizados e eficazes em outros países. Diferentemente do passado a nova ideia de nacionalismo que surge na época modernista procurava uma espécie de “utilidade” da cultura brasileira e tentava definir a sua contribuição no cenário internacional para tornar mesmo aquela cultura “universal”. A universalização da cultura brasileira se teria sido conseguida só através a afirmação dos valores da identidade brasileira e daquilo que realmente era considerado brasileiro; como bem afirma Teotônio Marques Filho “o movimento gira em torno do Brasil  –  de seus problemas, da realidade, do homem brasileiro.” 3  Então o caminho para o universal previa obrigatoriamente a etapa do nacional  . 1   2 O mesmo Mario de Andrade comentando o poema Raça  de Guilharme de Almeida diz: “A parte brasileira do poema, sob o ponto de vista ideal crítico de realidade brasileira não corrispond e à verdade, porém a uma convenção que se vai tornando exótica dentro do Brasil e que é regional, não duma só região, porém de regiões que não representam a realidade com que o Brasil concorre pra atual civilização universal. Porque essa concorrência se realiza com a parte progressista dum país, com o que nele é útil pra civilização e não com o que nele é exótico.” M. de Andrade, Carta a Manuel Bandeira , 26 de julho de 1925. 3  T. M. Filho, Macunaíma,Mario de Andrade, Modernismo , Por tras das letras. Disponível em http://www.portrasdasletras.com.br  Nesta busca pelo elemento nacional destacamos a tentativa de criação de uma língua “brasileira” que atendesse à s expectativas desta nova maneira de representar o Brasil através da literatura. É a partir desta ideia que o modernismo definiu a sua missão: criar um conceito de nacionalismo que realmente respondesse às dinâmicas daquele momento histórico. Uma “missão” principalmente combatida pela primeira geração; pensamos em Menotti del Picchia, Graça Aranha, Oswald de Andrade e especialmente por dois autores: Mário de Andrade e Manuel Bandeira. Os dois trocaram uma grande numero de cartas, a partir das quais podemos reconstruir as suas opiniões quanto à criação desta nova língua. Ambos trabalharam nesta “empresa linguística” mas Mário de Andrade com certeza foi o mais revolucionário e idealista dos dois. Nas palavras de Ivan Russef sobre Mário de Andrade, havia “a sua  ambição de contribuir, por meio de estudos linguísticos e da sua própria obra literária para a renovação da expressão artística nacional.” 4   Andrade era a procura de um “coeficiente brasileiro” que identificasse o país entre as demais nações do mundo: Brasil, corpo espandongado, mal costurado que não tem o direito de se apresentar como pátria porquenão representando nenhuma entidade real de qualquer caráter que seja, nem racial, nem nacional, nem sociológico é um aborto desumano e anti-humano. Nesse monstrengo político existe uma língua oficial emprestada e que não representa nem a psicologia, nemas tendências, nem a índole, nem as necessidades, nemos ideais do simulacro de povo que se chama o povo brasileiro. Essa língua oficial se chama língua portuguesa e vem feitinha de cinco em cinco anos dos legisladores lusitanos. O governo encomenda gramáticas de lá e os representantes da nossa maquinaria política, os chamados empregados públicos, que com mais acerto se chamariamde empregados governamentais, presidentes, deputados, senadores, chefes-de-seção etc. etc. etc. são martirizados pela obrigação diária de falar essa coisa estranha que de longe vem. 5   Mário de Andrade, assim como todo o movimento modernista, teve a tendência a observar a multiplicidade de falares nacionais e a adaptação da língua portuguesa tanto nas camadas sociais como nas diferenças geográficas, sem que isso acabasse apenas no regionalismo. A busca de um falar que fosse tipicamente brasileiro é percebida em quase a totalidade das obras de Mário nas quais ele demonstra a sua intenção de “nacionalizar a palavra.” 6   Se quisermos dar um exemplo poderíamos nos referir ao conto chamado “O Poço” no qual 4  I. Russef, O ensino da língua portuguesa: Variações entorno da Gramatiquinha Brasileira , 26° reunião anual da Associação nacional de pós-graduação e pesquisa em educação, Poços de Caldas, 2003. Disponível em www.anped.org.br/reunioes/26/trabalhos/ivanrusseff.rtf 5   6 M. De Andrade, Carta a Manuel Bandeira , 29 de setembro de 1924.  Mário de Andrade escreve: [...] enrolou, com que macieza! A cabeça do maninho no braço esquerdo, lhe  pôs a garrafa na boca.  –  Beba mano. Albino engoliu o álcool que lhe encerra a boca. Teve aquela reação desonesta que os tragos fortes dão. Afinal pôde falar: - Farta ... é só tá-tá seco [...] Enquanto isso a água vai minando.  – Se eu tivesse uma lúiz ...- Pois leve.  7   Neste exemplo vê-se o uso dum falar popular enquanto o autor utiliza uma grafia da forma que o recetor da narrativa entende o emissor, como no uso de lúiz ,  farta  o no uso do pronome lhe  antes do verbo. Mas entre as suas obras há uma de suma importância: Macunaíma , uma obra na qual: A fúria demolidora que caracterizou a primeira fase do nosso Modernismo (1922-1928) está ali em todos os sentidos: a estrutura do romance e a língua, principalmente, vem aí barbaramente violentadas na sua feição tradicional e académica. Macunaíma  é uma das expressões mais caracterizadoras do advento do Modernismo no Brasil . 8  O que mais se destaca nesta obra é a perceção do distanciamento do autor entre a língua escrita e aquela falada. No capitulo Cartas pras icamiabaso  o autor utiliza o artifício da carta escrita por Macunaíma  para sublinhar esta distancia: [...] Ora sabereis que a sua riqueza de expressão intelectual é tão prodigiosa, que falam numa língua e escrevem noutra. [...] Nas conversas utilizam-se os paulistanos dum linguajar bárbaro e multifário, crasso de feição e impuro na vernacularidade, mas que não deixa de ter o seu sabor de força nas apóstrofes, e também nas vozes do brincar. [...] Mas si de tal desprezível língua se utilizam na conversação desta terra, [...] mui próxim da vergiliana, no dizer dum panegirista meigo idioma que, com imperecível galhardia, se intitula: língua de Camões. [...] 9   Neste breve trecho percebe- se esta manifestação entre língua escrita e falada, o “lingua  jar 7 M. De Andrade Contos Novos , 1ª ed. São Paulo: Editora Klick, 1997, p.86. 8 M. Filho, Macunaíma,Mario de Andrade, Modernismo , Por tras das letras. Disponível em http://www.portrasdasletras.com.br 9  M. De Andrade, Macunaíma, O Herói sem Nenhum Caráter  , Rio de Janeiro, Agir, 2008, p.107,108.
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