O conceito de Klugheit em Kant

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O conceito de Klugheit em Kant
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  O   C ONCEITO DE  K   LUGHEIT   EM K  ANT 1    Robinson dos Santos (Universidade Federal de Pelotas) Klug im Zeitalter des Konformismus sind diejenigen, die wissen, wo und wann es klug ist, nicht mehr klug zu sein. 2  (Günther Anders) Introdução  Klugheit   (do grego  phronesis , do latim  prudentia ), traduzido e aceito  pelos intérpretes como  prudência 3 , é um conceito que não é propriedade intelectual e tampouco uma inovação de Kant 4 . No entanto, o termo tem um longo histórico nas suas preleções e, por mais insignificante que à 1  Uma versão preliminar deste texto foi apresentada na Universidade Federal de Santa Catarina, no evento  A tradução dos textos kantianos e seus problemas , em 2009, promovido pelo Centro de Investigações Kantianas (CIK) e pelo Programa de Pós-graduação em Filosofia e encontra-se na coletânea eletrônica organizada por Alessandro Pinzani e Valério Rohden, intitulada Crítica da Razão Tradutora: sobre a dificuldade de traduzir Kant, publicada online pelo Núcleo de Ética e Filosofia da Universidade Federal de Florianópolis, Brasil. 2  “Prudentes, em uma época de conformismo, são aqueles que sabem, onde e quando é prudente não ser mais prudente”. 3  Cf. AUBENQUE, 1963. 4  As citações dos textos de Kant serão feitas de acordo com a edição em seis volumes organizada por Wilhelm Weischedel   [KANT, Immanuel. Werke in sechs Bänden . Hrsg. von Wilhelm Weischedel. Darmstadt, 1998]. O número em romano indica o volume correspondente da edição aqui utilizada e, após este, a página do mesmo. A letra seguida do número indicam respectivamente a edição e paginação nos srci-nais. As abreviaturas correspondem aos seguintes textos. KrV =Kritik der reinen Vernunft  ; KpV=  Kritik der praktischen Vernunft; GMS= Grundlegung zur Metapysik der Sitten; As citações referenciadas com as iniciais AA, referem-se à edição da  Akademie-Ausgabe , também seguidas do número do volume e página.  Philosophica , 38 , Lisboa, 2011 , pp. 91-106    92   Robinson dos Santos    primeira vista possa parecer na recepção da filosofia prática kantiana, é um dos conceitos-chave da mesma 5 . O emprego deste conceito, longe de estar isento de dificuldades, envolve uma série de definições e reformula-ções, que adquirem características peculiares conforme a obra e a respec-tiva fase do pensamento de Kant que se toma por referência. Isso impõe alguns problemas que dificultam tanto uma compreensão sobre o signifi-cado exato do termo, bem como do “lugar” que ele ocupa no sistema e, sobretudo, de seu papel em relação à moral kantiana. Um estudo detalhado sobre a gênese e o desenvolvimento deste con-ceito em Kant e, até mesmo, sobre uma possível doutrina da prudência no século XVIII ainda fazem falta na  Kant-Forschung  6 . A essa dificuldade quanto a uma definição clara do conceito e do papel que cabe à prudên-cia, soma-se o fato de que na Grundlegung  7   o conceito passa a ser identi-ficado como imperativo hipotético  e, com isso, claramente rejeitado no âmbito da fundamentação da moralidade. Nas palavras de Brandt (2005,  p. 98) este problema é assim caracterizado: “A prudência sucumbe em Kant, assim podemos parafrasear sua doutrina, ao veto da moral; o que é  prudente, mas não moral, será soberana e incondicionalmente eliminado,  por mais prudente que seja”.  No entanto, se por um lado a prudência não pode servir para se esta- belecer um princípio incondicionalmente válido (necessário e universal)  para a moralidade, isso não a exclui em definitivo, por outro lado, do âmbito em que a mesma pode e dever ser efetivada: aquele em que será necessária a cultura dos talentos e disposições naturais do ser humano com vistas ao seu permanente processo de aperfeiçoamento moral [ mora-lische Vervollkommnung  ], isto é o âmbito da antropologia pragmática . 5  Neste sentido, considero apropriada a expressão utilizada por SCHWAIGER (2002)  – “metamorfoses de um conceito-chave da filosofia prática de Kant” – na medida em que é possível afirmar que Kant precisou elaborar sua própria definição de pru-dência, para poder demarcar os contornos de sua filosofia prática ante as doutrinas da tradição, especialmente com relação à doutrina aristotélica. Tal elaboração, como veremos, sofreu diversas modificações no itinerário filosófico kantiano. 6  Tais observações podem ser corroboradas através da constatação do número bastan-te reduzido de estudos significativos disponíveis sobre o tema da prudência em Kant. O tema aparece, não raro, como parte da discussão, quando o tema é a ques-tão dos imperativos, isto é, quase sempre indiretamente. Certamente constituem uma exceção, neste sentido, os estudos de AUBENQUE (1963), citado aqui a partir da segunda edição da tradução brasileira (2008), HINSKE (1980), SCHWAIGER (2002) e BRANDT (2005), todos os quais indicamos nas referências. 7  Este escrito de 1785 é conhecido pela sua importância e constitui-se numa referên-cia indispensável da ética kantiana. Antes dele Kant havia se confrontado apenas em 1763 com questões relacionadas à moral.    O conceito de  Klugheit  em Kant   93    Neste trabalho, procuro aproximar-me do tema da prudência com o intuito de apontar para apenas algumas de suas definições, em especial as definições feitas por Kant ao longo dos anos setenta, nas preleções de Antropologia, e aquelas que ele oferece na Grundlegung   (1785) bem como submetê-las à análise (I). Em seguida gostaria de apontar para duas  possibilidades de compreensão da prudência em sua relação com a moral e para alguns aspectos problemáticos decorrentes de tais modos de inter- pretação (II). 1. Habilidade, prudência e moralidade Geschicklichkeit  ,  Klugheit   e Weltweisheit   são os termos correlatos no idioma alemão, respectivamente, para habilidade ,  prudência  e  sabedo-ria . A definição da relação entre estes três conceitos e o posicionamento de cada um deles numa hierarquia possível foi, desde os primórdios da filosofia, objeto de controvérsia. Entre os contemporâneos de Kant, espe-cialmente aqueles que sobre ele exerceram certa influência, como Wolff e Baumgarten, a diferença na definição destes termos é marcante e irá repercutir nas primeiras formulações kantianas.  No escrito  Immanuel Kant´s Menschenkunde oder philosophische  Anthropologie , publicado em 1831 pelo estudioso  Johann Adam Bergck  , assinando com o pseudônimo Friedrich Christian Starke 8 , assim é regis-trada a definição de Kant quanto às doutrinas que podem contribuir para a  perfeição humana: “Existem três espécies de doutrina, todas as quais contribuem para nossa perfeição: a primeira delas nos torna hábeis, a segunda prudentes e a terceira sábios”(AA, XXV 855). Para nos capacitar na habilidade, assim prossegue Kant, servem as ciências da escola. As instruções nos ensinam como devemos utilizar tais habilidades no mundo, isto é, são instruções para o mundo prático ou da ação, ao passo que o grau mais elevado da sabedoria é o espírito da perfeição, que raramente será atingido. As definições acima mencionadas remetem às preleções de Antropo-logia de Kant, as quais são oferecidas a partir do semestre de inverno de 1772-1773 e se estendem regularmente até 1795-1796 9 . Como se pode  perceber, elas são desenvolvidas ao longo dos “anos de silêncio”, em que Kant realiza pacientemente suas investigações para a elaboração da pri-meira crítica. No material destinado a tais preleções o conteúdo da noção 8  Cf. HINSKE, 1980, p. 89. 9  Cf. BRANDT, 2005, p.105. Embora existam controvérsias quanto a datação, a  Menschenkunde  é, conforme SCHWAIGER, 2002, p. 155, um texto do início dos anos oitenta.  94   Robinson dos Santos   de prudência distancia-se gradativamente da concepção srcinária basea-da inicialmente em Baumgarten 10 . Este concebia a prudência não no âmbito da moralidade dos deveres para consigo mesmo, como Wolff  11 , mas na sua relação com a sabedoria divina, isto é, no campo teológico--metafísico. Kant assume progressivamente uma perspectiva pragmática ou relacionada a questões da vida prática 12  em sua definição de prudên-cia. Isso ficará mais explícito em 1798 quando é publicada a  Anthropolo- gie im pragmatischer Hinsicht  . Habilidade, prudência e sabedoria, longe de permanecer na generali-dade de meras qualificações de ações segundo determinadas regras, con-forme observa Hinske (1980, p. 90), são conceitos com os quais Kant irá se ocupar com frequência e cujo conteúdo será sempre alvo de re--elaborações no sentido de demarcar claramente suas diferenças, tarefa e finalidade, para impedir que sejam confundidos. De modo especial, apa-rece em primeiro plano para Kant a diferença entre habilidade e prudên-cia. Na  Menschenkunde , a distinção entre ambas fica assim evidenciada: “A habilidade está direcionada para as coisas, a prudência para a felicida-de” [  Die Geschicklichkeit ist auf Sachen, die Klugheit auf Menschen  gerichtet  ] (AA XXV 855).  Nas preleções de Antropologia  Mrongovius  (1785) o conceito de  prudência é diferenciado do conceito de habilidade na seguinte perspecti-va: enquanto a habilidade [ Geschicklichkeit  ] é definida como uma capa-cidade de servir-se de meios na natureza, a prudência é “a capacidade ou conhecimento de se chegar aos seus propósitos e de fazer uso da habili-dade ou servir-se de outros homens para se atingir seus propósitos” (Blatt 2). Habilidade, neste contexto, está na relação entre as capacidades humanas e o uso das coisas, enquanto a prudência a pressupõe e simulta-neamente a ultrapassa: ela está na relação das capacidades humanas no trato consigo mesmo e com os demais. Neste sentido, alguém poderia ser muito hábil para produzir ou consertar algo, sem no entanto ser suficien-temente inteligente para fazer de sua própria habilidade ou talento um caminho para construir e estabelecer relações com outras pessoas, isto é, desenvolver a sociabilidade e desfrutar do prestígio e reconhecimento social. É importante notar que, até aqui, Kant nada menciona a respeito da felicidade, o que irá aparecer claramente em outras preleções dos anos 10  Cf. BRANDT, 2005, p. 105. 11  Cf. SCHWAIGER, pp. 149 et seq. 12  O ouvinte destas preleções, que não era necessariamente um erudito ou versado em Filosofia, deveria adquirir, conforme oberva Brandt, um conhecimento sobre si mesmo e sobre a sociedade humana, no intuito de fazer um bom uso de suas pró- prias capacidades e movimentar-se no mundo.    O conceito de  Klugheit  em Kant   95   setenta, como a  Moralphilosophie Collins , por exemplo, e em 1785 na Grundlegung  . Embora haja na  Menschenkunde  outra distinção da prudência, desta vez com relação à sabedoria, esta é feita em poucas palavras e não é ali aprofundada por Kant. Ele limita-se a afirmar que a doutrina da sabedoria é moral, assim como a prudência é pragmática (AA XXV 855). Apesar disso, há um grau de diferença nítido entre a prudência e a moral, assim como entre a prudência e a habilidade. É nas Vorlesungen über Philoso- phische Enzyklopädie  que a diferença entre prudência e sabedoria irá aparecer com ênfase: “Não há nenhuma relação natural entre o bom com- portamento e a felicidade” (p. 67). A comparação de Kant entre Sócrates e César indica uma possível contradição entre os dois. Quem quiser se comportar bem, deve agir como Sócrates, quem quiser a felicidade, como César. Dito de outro modo, não apenas não há qualquer relação natural entre felicidade e sabedoria, mas trata-se, sobretudo, de uma relação de tensão. A exitosa falta de escrúpulos de César e a honradez sem sucesso de Sócrates trazem à lume, em sua gradação e unilateralidade incomuns, apenas uma problemática diante da qual, na verdade, cada indivíduo se vê colocado em sua ação” (HINSKE, 1980, p. 93) À pergunta de como se pode adquirir a prudência é respondida, na Antropologia  Mrongovius , através de três caminhos possíveis: a) através da própria experiência, embora Kant adverte que esta é, em parte, sempre tardia e, em parte, é preciso aprender por meio dos próprios danos; b) através da observação dos outros, que é, segundo ele a mais aconselhável ou ainda; c) através do aprendizado de certos preceitos que poderiam servir a uma preparação, os quais são possíveis através da experiência de outros homens (Blatt 3). Tais considerações permitem uma aproximação com a formulação apresentada ao final da  Anthropologie im pragmati- scher Hinsicht  : O resultado final da Antropologia pragmática com relação à destina-ção do homem e à característica de seu aprimoramento é o seguinte. O homem está destinado por sua razão a estar em uma sociedade com homens e nela, por meio das artes e das ciências, a cultivar-se, a civi-lizar-se e a moralizar-se, por maior que seja sua inclinação animalesca a abandonar-se passivamente aos incentivos da comodidade e da boa vida que ele chama de felicidade, e em fazer-se ativamente, em luta com os obstáculos que o prendem à rudez de sua natureza, digno da humanidade (VI 678, B 319).
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